BERTOLT BRECHT E KEN LOACH
TRABALHO E POLÍTICA NA DRAMATURGIA E DRAMATURGIA COMO TRABALHO POLÍTICO
Resumo
A presente pesquisa busca analisar as relações entre trabalho e política a partir do olhar comparativo sobre a peça teatral “A Mãe”, de Bertolt Brecht, e o filme “Você não estava aqui”, de Ken Loach. A abordagem de obras de diferentes contextos históricos e de distintos registros midiáticos permite vislumbrar a arte como forma ação política, discutindo como o trabalho no sistema capitalista e a política são representados no filme e na peça teatral. Articulando reflexões sobre arte, política, trabalho e sociedade, este trabalho se caracteriza por sua interdisciplinaridade. Por isso, empreende-se o diálogo com autores como Schwarz (1999) e Dalvi, Grillo (2023). Ademais, realizou-se a abordagem da filosofia de Benjamin (2017), cujos conceitos permitem desenvolver a discussão da arte enquanto trabalho em conexão com a política, contrapondo as diferentes formas de exploração social, seja no início do século XX, seja no contexto do capitalismo contemporâneo frente ao advento das tecnologias digitais. Enquanto um projeto ainda em andamento, as análises até então desenvolvidas permitem sustentar a hipótese de que a arte, enquanto trabalho, caracteriza-se como elemento constituinte da condição ontológica humana. Evocando as reflexões de Walter Benjamin, no século XX a arte se aproximou da política sob diferentes prismas. De um lado houve a estetização da política praticada pelo fascismo, algo que só pode ser combatido, de outro lado, pela politização da arte. Foi nesse sentido que Brecht, contemporâneo e ideologicamente próximo a Benjamin, desenvolve seu teatro épico, propondo a tematização nos palcos das condições de exploração e da luta de classes. O teatro, então, representaria a possibilidade de insurreição do proletariado, visando conscientizar as massas e estimulá-las à luta anticapitalista. Décadas adiante, o cineasta Ken Loach ecoa, no cinema, o projeto teatral de Brecht. Justamente por tais desdobramentos, suas obras tendem ao “autenticismo”, denominação cunhada pelo próprio diretor para se referir à representação da realidade da classe trabalhadora em um mercado de trabalho a cada dia mais uberizado, contexto em que, diferentemente de Brecht, os movimentos revolucionários se encontram enfraquecidos. Contudo, a despeito das possíveis diferenças, existem significativas pontos de contato que permitem a aproximação das produções dramatúrgicas em análise, como, por exemplo, a deterioração dos vínculos familiares e a deslegitimação do papel da mulher, cujas tarefas de cuidado distinguem-se, frente aos discursos sociais, do “trabalho verdadeiro”.
Palavras-chave: Arte. Bertold Brecht. Ken Loach. Cinema. Dramaturgia. Trabalho.